O que nos surpreende na prática do tiro com arco e na
de outras artes que se cultivam no Japão (e
provavelmente também em outros países do Extremo
Oriente) é que não tem como objetivo nem resultados
práticos, nem o aprimoramento do prazer estético, mas
exercitar a consciência, com a finalidade de fazê-la
atingir a realidade última .

A meta do arqueiro não é
apenas atingir o alvo; a espada não é empunhada para
derrotar o adversário; o dançarino não dança unicamente com a
finalidade de executar movimentos harmoniosos.
 O que eles pretendem, antes de tudo, é harmonizar o
consciente com o inconsciente.
Para ser um autêntico arqueiro, o domínio técnico
é insuficiente, E necessário transcendê-lo, de tal
maneira que ele se converta numa arte sem arte,
emanada do inconsciente.
No tiro com arco, arqueiro e alvo deixam de ser
entidades opostas, mas uma única e mesma
realidade. O arqueiro não está consciente do seu “eu”,
como alguém que esteja empenhado unicamente em
acertar o alvo. Mas esse estado de não-consciência só
é possível alcançar se o arqueiro estiver desprendido de
si próprio, sem, contudo, desprezar a habilidade e o
preparo técnico. Dessa maneira, o arqueiro consegue
um resultado em tudo diferente do que obtém o
esportista, e que não pode ser alcançado simplesmente
com o estudo metódico e exaustivo.
Esse resultado, que pertence a uma ordem tão
diferente da meramente esportista, se chama satóri, cujo
significado aproximado é “intuição”, mas que nada tem
a ver com o que vulgarmente assim se denomina.
Prefiro, por isso, chamá-lo de intuição prájnica.
Podemos traduzir prajnâ como sabedoria
transcendental, embora essa expressão tampouco reflita
os múltiplos e ricos matizes contidos nessa palavra,
porquanto se trata de uma intuição especial, que capta
simultaneamente a totalidade e a individualidade de
todas as coisas. Essa intuição reconhece, sem nenhuma
espécie de meditação, que o zero é o infinito e que o
infinito é o zero. E isso não constitui uma indicação
simbólica ou matemática, mas uma experiência
diretamente apreensível, resultante de uma experiência
direta. Psicologicamente falando, o satóri consiste numa
transcendência dos limites do ego. Do ponto de vista
lógico, é a percepção da síntese da afirmação e da
negação. Metafisicamente, é a apreensão intuitiva de
que ser é vir a ser e vir a ser é ser.
A diferença mais marcante entre o Zen e as demais
doutrinas de índole religiosa, filosófica e mística é que,
sem jamais sair da nossa vida cotidiana, com tudo o
que ela tem de concreto e prático, o Zen tem
qualquer coisa que o mantém acima e além da
banalidade do cotidiano.
Aqui chegamos ao ponto de contacto entre o Zen,
o tiro com arco e as demais artes, como esgrima, o
arranjo de flores, a cerimônia do chá, a dança, a
pintura etc.
O Zen é a “consciência cotidiana”, de acordo com
a expressão de Baso Matsu (morto em 788). Essa
“consciência cotidiana” não é outra coisa senão “dormir
quando se tem sono e comer quando se tem fome”.
Quando refletimos, deliberamos, conceptualizamos, o
inconsciente primário se perde e surge o pensamento.
Já não comemos quando comemos, nem dormimos
quando dormimos. Dispara-se a flecha, mas ela não se
dirige diretamente ao alvo e este não está onde devia
estar.

O cálculo verdadeiro se confunde com o falso. A
confusão introduzida no espírito do arqueiro se traduz
em todos os sentidos e em todos os domínios.
O homem é definido como um ser pensante, mas
suas grandes obras se realizam quando não pensa e não
calcula. Devemos reconquistar a ingenuidade infantil,
através de muitos anos de exercício na arte de nos
esquecermos de nós próprios. Nesse estágio, o homem
pensa sem pensar. Ele pensa como a chuva que cai do
céu, como as ondas que se alteiam sobre os oceanos,
como as estrelas que iluminam o céu noturno, como a
verde folhagem que brota na paz do frescor primaveril.
Na verdade, ele é as ondas, o oceano, as estrelas, as
folhas.
Uma vez que o homem alcance esse estado de
evolução espiritual, ele se torna um artista Zen da
vida. Ele não precisa, como o pintor, de telas, pincéis
e tintas; nem como o arqueiro, do arco, da flecha, do
alvo e dos demais acessórios. Ele tem seus membros,
seu corpo, sua cabeça e os órgãos que constituem seu
corpo. Sua vida, no Zen, se expressa por meio de todos
esses instrumentos importantes, como manifestações
suas. Suas mãos e os seus pés são os pincéis. O
universo é a tela sobre a qual ele pinta sua vida durante
setenta, oitenta, noventa anos. Esse quadro se chama a
história.
Hoyen de Gosozan (morto em 1104) disse: “Eis
um homem que converte o vazio do espaço numa
folha de papel, as ondas do mar em tinta e o Monte
Sumeru
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em pincel para escrever estas cinco sílabas: so-shi-sairai-i.

“Diante dele eu estendo meu zagu e me inclino
profundamente.” Poder-se-ia perguntar o que significa
essa maneira fantástica de escrever. Por que é digno
da mais alta veneração alguém capaz disso? Um
mestre do Zen talvez respondesse: “Como quando
tenho fome; durmo quando estou com sono.” Se seu
espírito estiver voltado para a natureza, ele também
poderia dizer: “Ontem fazia um belo dia e hoje chove.”
Mas para o leitor, a pergunta ainda subsiste: “Onde
está o arqueiro?” Neste maravilhoso livro, o professor
Herrigel, filósofo alemão que viveu durante muitos anos
no Japão e se dedicou ao tiro com arco para poder
compreender o Zen, nos transmite sua experiência de
uma maneira luminosa. Graças à limpidez do seu estilo,
o leitor do Ocidente não terá dificuldade em penetrar na
essência dessa experiência oriental, até agora tão pouco
acessível.
Ipswich, Massachusetts,
maio de 1953

Resumo da Obra

 

A arte cavalheiresca do arqueiro zen, de Eugen Herrigel, cujo prefácio foi escrito por D. T. Suzuki. É importante dizer que se trata de um livro não-ficcional, escrito por um filósofo alemão em 1948, quase vinte anos depois de ter voltado do Japão. Durante os anos em que viveu em tal país como professor da Universidade de Tohoku, Herrigel aprendeu a arte de atirar com o arco. Na contracapa de seu livro, ele conta como seu mestre deu dois tiros no escuro, acertando ambos. Apenas essa história já seria suficiente para compreender o zen, ou pelo menos para dar-lhe credibilidade, uma vez que, voltamos a dizer, A arte cavalheiresca do arqueiro zen é uma obra não-ficcional.

Independente de saber se o livro é um retrato exato do zen budismo ou a arte do arco e flecha tradicional japonês (kyudo), é extremamente querido por muitos e tem sido um best-seller há mais de cinqüenta anos. Muitas das idéias do livro tornaram-se princípios fundamentais de como os ocidentais vêem zen budismo. Um exemplo é a ideia de que as tarefas de um simples devoto estudo por muitos anos aos pés de um mestre, antes de serem autorizados a fazer as tarefas mais importantes. Por exemplo, uma ideia central do livro é que através de anos de prática, uma atividade física torna-se fácil tanto mentalmente e fisicamente, como se o corpo executa movimentos complexos e difíceis, sem o controle consciente da mente.

A doutrina do kyudo está altamente agregada ao estudo do zen, kyudo é uma arte altamente formalizada e definitivo alvo do praticante é competir consigo mesmo. Com a concentração apropriada, praticante e arco se fundem, quando se tornam um só, aí sim, e somente aí, a flecha pode ser liberada, no kyudo não importa o quão precisa é a flecha no alvo, ou como se atingiu o alvo, isso é apenas conseqüência. O importante é como esse tiro é feito e em que estado à mente se encontra quando a flecha é solta. É uma combinação de arte física e filosófica sob os princípios do zen budismo.

Eugen Herrigel dedicou-se ao estudo do zen budismo, a fim de facilitar seu estudo, se propôs a aprender a arte dos arqueiros, teve a sorte de ter um mestre Zen, que normalmente se recusaria ensinar os ocidentais, porque eles são difíceis de ensinar. Já nos seus tempos de universitário, como que animado por um misterioso impulso, ocupava-se com o estudo do misticismo, não obstante viver numa época que demonstrava pouco interesse por tais inquietações.

Até hoje, a palavra oriente possui grande e interessante ressonância cultural no ocidente, e isto, ainda ocorrendo na contemporaneidade, tanto no senso comum como no meio acadêmico e intelectual, em que pese os meios de locomoção e comunicação da sociedade pós-industrial e pós-moderna. No caso, o selo do exótico e da homogeneização da cultura distante marca a obra de Herrigel ao ver o zen onde não o havia.

Mas apesar de todos os seus esforços, sempre teve consciência de que não poderia apreender os ensinamentos místicos de um ponto de vista externo. Era capaz, é verdade, de compreender o que se pode chamar de fenômeno místico primário, mas não me era possível transpor o círculo que, como uma alta muralha, cerca o misterioso.

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Na abundante literatura sobre o misticismo, não encontrava o que buscava, e assim, desiludido e desanimado, chegou à conclusão de que só quem verdadeiramente se isola é capaz de aprender o que significa isolamento, e só quem leva uma vida contemplativa está completamente livre e desprendido de si para a união com o “Deus supradivino”. Eu compreendera que não havia outro caminho que conduzisse ao misticismo, a não ser o da própria vivência e o do sofrimento.

A experiência de Herrigel como aprendiz do zen, fez-lhe perceber que sua busca por algo místico também não poderia ficar no âmbito do pensamento verbal:

Eu compreendera que não havia outro caminho que conduzisse ao misticismo, a não ser o da própria vivência e do sofrimento. Se faltam essas premissas, fica apenas o inconseqüente palavrório. (pag. 26).

99819Desde o começo da aventura espiritual de Herrigel, existe uma peregrinação arrebatedora desde as primeiras páginas deste livro. Uma dura, áspera e longa viagem que começa nas trevas do exterior e termina na ofuscante luminosidade interior e que nos lembra a célebre declaração zen: “Antes que eu penetrasse no Zen, as montanhas e os rios nada mais eram senão montanhas e rios. Quando aderi ao Zen, as montanhas não eram mais montanhas, nem os rios eram rios. Mas, quando compreendi o Zen, as montanhas eram só montanhas e os rios , apenas rios.”(pag.7).

A arte cavalheiresca do arqueiro zen traduz com riqueza de detalhes a expressão transmissiva da escola nipônica: quase 6 (seis) anos de trabalho diário com arco e flecha até que se consiga acertar o alvo, o mestre não dá qualquer instrução de como manejar o disparo além de, ocasionalmente, executar a tarefa diante dos olhos do discípulo. Não há, ainda, qualquer intenção de ganho exterior ou esportivo: “Arco e flecha são, por assim dizer, nada mais do que pretextos para vivenciar algo que também poderia ocorrer sem eles” (pag.19).

A luta de Herrigel para superar sua “demasiada obstinada vontade” e dominar o arco. Torna esta interessante história muito comovente, educativa e inspiradora, mas não se torna pesado, uma vez que facilmente poderia ter em menos de autoria hábil.

A arte do tiro com arco seja a arte marcial mais zen por sua própria prática, já que a precisão de uma flecha se obtém por um condicionamento de tranqüilidade e calma e não por explosão física como outras artes marciais. Os arqueiros sempre foram usados em guerras, a técnica do arco é a técnica pela técnica se tornou um caminho a ser seguido, um meio para se atingir um objetivo maior, que para os japoneses é o auto-entendimento e perfeição através das técnicas marciais, o aluno japonês traz consigo 3 (três) coisas: uma boa educação, um profundo amor pela arte escolhida e uma veneração incondicional pelo mestre.(pag.51).As cerimônias e rituais que envolvem essa arte permanecem inalteradas até hoje.

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“O desafio final Herrigel enfrenta acaba sendo a libertação suave da corda do arco e flecha, sem intenção consciente”, como o fruto maduro cai da árvore” (pag.64), “como a mão de um bebê libera um objeto para captar outra”(pag. 41), “como a folha de bambu lentamente dobra sob o peso da neve, em seguida, libera o monte de neve sem pensar “.(pag. 60).

Durante as férias de verão, desenvolve uma “técnica” que ele acredita que vai resolver esse problema e quase se obtém jogado para fora do programa por “ofender o espírito do Zen” (pag. 61). Há também um interessante relato de um encontro, onde o professor dá uma incrível demonstração de domínio silencioso, a fim de levantar o moral Herrigel e o nível de compreensão.

“Durante muito tempo eu atirava sem conseguir abrir direito o arco, até que um dia o mestre me ensinou um exercício de respiração, e tudo ficou fácil. Perguntei por que demorara tanto para me corrigir. Ele respondeu:” Se desde o início eu tivesse lhe ensinado os exercícios respiratórios, você acharia que eram desnecessários. (pag.33). Agora você irá acreditar naquilo que eu lhe digo, e irá praticar como se fosse realmente importante. “Quem sabe educar, age assim.” O momento de soltar a flecha acontece de maneira instintiva, mas antes é preciso conhecer bem o arco, a flecha e o alvo. “O golpe perfeito nos desafios da vida, também usa a intuição; entretanto, só podemos esquecer a técnica depois que a dominamos completamente.” (pag.40).

“Depois de quatro anos, quando já era capaz de dominar o arco, o mestre me deu os parabéns. Eu fiquei contente, e disse que já tinha chegado na metade do caminho. “Não”, respondeu o mestre. “Para não cair em armadilhas traiçoeiras, é melhor considerar como metade do caminho o ponto que você atinge depois de percorrer 90% da estrada.”

Herrigel nos mostra que a prática do tiro com o arco não tem como objetivo nem resultados práticos, nem o aprimoramento do prazer estético, mas o exercitar a consciência, com a finalidade de fazê-la atingir a realidade última. A meta não é apenas atingir o alvo, antes de tudo, é harmonizar o consciente com o inconsciente. O domínio técnico é insuficiente, é necessário transcendê-lo, de tal maneira que ele se converta numa arte sem arte, emanada do inconsciente. O arqueiro e o alvo deixam de ser entidades opostas, se transformam em uma única e mesma realidade. Assim deve ser o educador frente a seus objetivos. No fundo, o educador ‘aponta’ para si mesmo e talvez em si mesmo consiga acertar.

O desapego, o desprendimento, são partes fundamentais do ensinamento zen. Quando muito desejamos algo, tendemos a não ser capazes de manter certa distância da situação. Tornamo-nos, muitas vezes, ávidos, em busca aflita, o que pode por tudo a perder. Nestes casos, muito comuns, é mais prudente preparar-se também para aceitar o fracasso. Não basta simplesmente botar na cabeça que já conseguimos.

Herrigel sugere que a origem de qualquer necessidade de luta exterior possa ser solucionada a partir da luta consigo mesmo, sendo aí a arena em que se devem travar os combates humanos. Dar a dimensão de vida e morte aos embates consigo mesmo significa trazer a responsabilidade ao homem pela origem de todas as suas ações decisivas, incluindo as ações geradoras e gerenciadoras de conflitos. Apesar de se encontrar nesta compreensão argumentos dualistas e que, pela própria origem e formação alemã, remetem mesmo a certo idealismo, pode-se também supô-la como uma compreensão relevante na história das idéias, até mesmo por suas influências enquanto categorias assumidas pelo diálogo intercultural acerca da espiritualidade japonesa que, então, se intensificava.

O pensamento de Herrigel nos permite vislumbrar a concepção espiritual oriental que trata da “arte sem arte”: “Nenhuma pessoa razoável irá exigir do budista zen, que vive na verdade inconcebível einexprimível, que ele tente apresentar sequer um esboçodas experiências que o libertaram e transformaram. Isso porque o Zen está aparentado com o mais puro e contemplativo misticismo. Quem jamais teve experiências místicas, está e ficará excluído. […] O Zen, como toda mística, é acessível apenas ao verdadeiro místico, ou seja, a alguém que não está exposto à tentação de obter, de maneira sub-reptícia, o que a própria experiência mística nega.” (pag.21).

Na verdade esta teoria do Zen tem base no Tao. Trata-se do conceito taoísta do wu-wei (não fazer) no qual se sabe quando se deve ou não agir com o mínimo esforço, deixando as coisas seguirem o seu curso natural, de maneira espontânea e conseguindo se entregar ao momento presente de forma total. Isto resulta de um sentimento de si mesmo como ligado a outros e ao seu ambiente. É a experiência de nadar com a corrente, seguir com o fluxo ou vagar sem um propósito. O que significa confiar em nosso próprio corpo, os nossos pensamentos e emoções, acreditando que o ambiente irá fornecer apoio e orientação. Ao cultivar wu-wei, o momento torna-se um aspecto importante de nosso comportamento. Aprendemos a perceber processos em suas primeiras fases e, portanto, somos capazes de tomar as medidas oportunas. (pag.53).

A transmissão do conhecimento verdadeiro, de um para o outro, dependeria então de uma espécie de “maturação” interna daquele que aprende. O mestre ensina a partir do que é vivenciado pelo seu aprendiz: “O mestre pode mostrar-lhe algo de que tinha ouvido falar muitas vezes, mas cuja realidade só agora fica tangível, em virtude de suas próprias experiências” (pag. 56).

A aceitação resoluta da morte teria a força de superar o ‘aprisionamento’ do homem aos apegos ou aos sentimentos. Através de longos anos dedicados à meditação ele descobriu que, no fundo, a vida e a morte são uma única coisa, e que ambas pertencem ao mesmo plano do destino. Ele não sente a angústia de viver, nem o temor da morte. (pag. 87-88).

No livro fala sobre a prática de arco e flecha, Herrigel afirma que a arte genuína não conhece intenção ou finalidade. Quanto maior o empenho obstinado para o disparo em busca do alvo, menor a probabilidade de atingi-lo. O que obstrui o caminho para atingir o objetivo pré-determinado é a vontade demasiadamente ativa. Para um mestre zen, é preciso desprender-se de si mesmo. Fica muito bem exemplifica na seguinte passagem:

“Sentei-me numa almofada, diante do mestre que, em silêncio, me ofereceu chá. Permanecemos assim durante longos momentos. O único ruído que se ouvia era o do vapor da água fervendo na chaleira. Por fim, o mestre se levantou e fez sinal para que eu o acompanhasse. O local dos exercícios estava feericamente iluminado. O mestre me pediu para fixar uma haste de incenso, longa e delgada como uma agulha de tricotar, na areia diante do alvo. Porém, o local onde ele se encontrava não estava iluminado pelas lâmpadas elétricas, mas pela pálida incandescência da vela delgada, que lhe mostrava apenas os contornos. O mestre dançou a cerimônia. Sua primeira flecha partiu da intensa claridade em direção da noite profunda. Pelo ruído do impacto, percebi que atingira o alvo, o que também ocorreu com o segundo tiro. Quando acendi a lâmpada que iluminava o alvo constatei, estupefacto, que não só a primeira flecha acertara o centro do alvo, como a segunda também o havia atingido, tão rente à primeira, que lhe cortara um pedaço, no sentido do comprimento”. (pag.71).

A definição do zen, logo no começo do livro A Arte Cavalheiresca do Arqueiro zen, se aproxima de algo que gostaríamos de praticar é uma experiência direta, imediata, não filtrada pelo intelecto. Transcendência do intelecto, desprezo pelas palavras, silêncio, gestos iluminantes e iluminados, comunhão com o cosmos.

O estudo dessas práticas e filosofias é realizado para nosso desenvolvimento pessoal e profissional. A facilidade da prática do zen consiste em respeitar o corpo – dormir quando tem sono e comer quando tem fome. (pag.11). Quando surge o pensamento, passamos para o mundo onde a importância, determina e o inconsciente primário se perde e já não comemos quando comemos, nem dormimos quando dormimos. Dispara-se a flecha, mas ela não se dirige diretamente ao alvo e este não está onde deveria estar.

Esquecer de nós mesmos é o conselho para atingir o zen: “o homem é um ser pensante, mas suas grandes obras se realizam quando não pensa e não calcula. Pensar sem pensar!”.

A ação contínua do ato de disparar uma flecha envolve fundamentos concretos: segurar arco e flecha, estirar a corda do arco olhar o alvo, e disparar. Esses fundamentos efetivam o arqueiro, desprende-se do esforço, como se não tivesse de fazer nada. Em outras palavras, “é necessário transcender o intelecto em atividades bastante concretas, como praticar um esporte”. Ou gerenciar um processo na organização, o que não implica deixar de lado a concentração no foco na gestão do líder.

Deste modo, podemos dizer que assimilar fundamentos para melhorar o desempenho em qualquer atividade não implica exclusivamente adotar apenas atitudes mecânicas. O ato de pensar está associado a componentes intangíveis como sensibilidade, percepção, intuição e interpretação. Não se pode afirmar, também, que apenas os componentes intuitivos sejam suficientes para orientar decisões e executar ações. A conclusão, portanto, é que coração e mente precisa ser acionados para atingir o alvo que se almeja.

O livro tem inúmeras passagens importantes, mas uma que me chamou atenção é a seguinte: O aluno estava executando um trabalho com o mestre, movendo grandes pedras no fundo do mosteiro com a ajuda de bastões de alavanca. Ao perceber que aluno estava com dificuldade de mover uma pedra, o mestre se aproximou. Pediu licença e colocou o bastão na base oposta a que o aluno estava imprimindo força. Como que por mágica a pedra começou a rolar para o outro lado. Ele então explicou: Algumas vezes você tem que empurrar uma pedra na direção que ela quer ser rolada.

Pedras são os empecilhos que prejudicam o andamento do trabalho. São os processos: inadequados, a burocracia, a falta de equipamentos ou treinamento.

A missão do líder dentro de uma equipe consiste em tirar as pedras do caminho e obter o melhor das pessoas. No final, o que importa é garantir que todos estão desempenhando o seu melhor. Tirar as pedras do caminho é o meio para que isso aconteça. Descobrir para que lado cada pedra quer ser rolada e a melhor forma de fazer isso.

O livro do Arqueiro é pra ser lido e relido. Ler uma frase e depois de um tempo reler. Conforta-nos, chama atenção para regularmos e reajustarmos o faz-faz de cada dia, para pensarmos em sermos mais serenos sem perder a energia. O livro nos deu a certeza de que devemos permanecer no caminho das práticas em que a percepção interna do corpo é valorizada.

Referências:

>> https://tokyobling.wordpress.com

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