Ler Mangá é Suficiente Para Aprender Japonês? E chinês?

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Ler Mangá é Suficiente Para Aprender Japonês? E chinês?

Ah, globalização, sua linda! Você trouxe ao Brasil coisas que invadiram nossos corações, como as artes marciais e o mangá!

Muitos brasileiros gostam muito de mangá e anime, os famosos quadrinhos e animações japoneses, respectivamente. Para quem é mais inclinado a amar a China e o mandarim, há versões locais de manga, mànhuà. Embora menos conhecidos, eles existem e esperam ser devorados por seus aficionados. Algumas pessoas vão mais a fundo que meramente ler manga ou praticar artes marciais e efetivamente se dedicam a aprender japonês e / ou chinês mandarim.

É preciso deixar claro que o autor deste texto não é especialista em mundo manga.

No artigo de hoje exporemos um pouco dos diferentes níveis de língua (formal e informal) do japonês e do mandarim a partir dos exemplos de manga que vimos acima. Diante da complexidade da variação da língua principalmente em níveis hierárquicos, qual é a forma correta para usar em cada situação? Podemos falar com qualquer pessoa da mesma forma que vemos no mangá? Hmmm. Acho que não.

Manga estilo shounen, Jesus Lesson 25, Shougakukan 1993.

 

No tocante à língua japonesa, este artigo tratará de modo genérico sobre sua modalidade informal e um pouco mais detalhadamente, sobre como dizer “você” em japonês. Quanto ao chinês mandarim, falaremos de algumas palavras que deixam pedidos e sugestões mais polidos.

Manga chinês (mandarim: 漫画 mànhuà), Niao Long Yuan volume 4, Beifang Funu Ertong Chubanshe et al., 2004.

 

Comecemos pelo japonês. O mangá em geral trata de relações de pessoas próximas entre si, por tanto utiliza forma mais coloquial do 日本語 nihongo[3].

Nomura-san, se cuida :’( :’( <3

No exemplo retirado do mangá Jesus de 1993, no início da página[4], vemos uma moça que aparentemente aflita, fala consigo mesma:

お願い…野代さん…無事でいて…

O-negai…Noshiro-san…buji de ite…

Vocabulário:

お願い o-negai: por favor;

野代 Noshiro: nome próprio de pessoa (sobrenome);

さん san: senhor, senhora ([indispensável, frequentemente intraduzível] sufixo de polidez usado para referir-se a alguém com quem se fala ou de quem se fala);

無事 buji: segurança, paz;

de: (intraduzível) auxiliar verbal (nomenclatura gramatical japonesa: 助詞 joushi) que indica o modo como algo é feito ou acontece; auxiliar verbal modal;

いて ite: (neste caso) esteja; [5]

Assim, o trecho pode ser traduzido em português como:

“Por favor…Noshiro…esteja bem”.

Notemos que o uso de reticências, ao invés da vírgula, exprime que as palavras foram ditas de forma vagarosa, muito provavelmente de modo a expressar estado de grande preocupação ou tristeza.

 

A moça deve gostar desse tal de Noshiro! Por que não o chamou de anata? Como se diz “você” em japonês?

 

Em japonês, evita-se chamar as pessoas pelo que seriam equivalentes dos pronomes pessoais “você” e “tu”, justamente pela ambiguidade intrínseca que estes têm. Estes são reservados para situações peculiares com muito provável envolvimento emocional, (frequentemente) mútuo – não necessariamente envolvimento romântico, mas intimidade em termos de amizade e afins.

Já fomos introduzidos a este assunto no artigo sobre a palavra 未練 miren.

Passemos a uma rápida introdução a alguns dos equivalentes em japonês dos pronomes você / tu.

Não é nosso objetivo divagar sobre quando usar as diferentes formas de “você” na língua japonesa, até porque para os próprios japoneses este é um tópico complexo. No fim das contas, para evitar erros e situações embaraçosas, recomenda-se chamar a pessoa com quem se está falando por “nome + san”. Ex: Benjamin-san[6].

Tomaremos como exemplo uma pesquisa de corpus[7] com as cinco formas mais comuns de “você”, usadas de acordo com gênero e, em seguida, discutiremos brevemente sobre as implicações de usar cada uma destas.

De acordo com Wang Xin[8], o Instituto Nacional Japonês de Língua Japonesa e Linguística 国立国語研究所 Kokuritsu Kokugo Kenkyuusho[9] realizou em 1957 uma pesquisa sobre o uso de pronomes pessoais entre homens e mulheres. Para se referir ao interlocutor (“você” / “tu”; ou seja, com quem se está falando; pronome pessoal do caso reto, segunda pessoa do singular), os resultados foram os seguintes:

 

Pronome utilizado e número de vezes Divisão dos entrevistados em gênero
あなた anata 44 homens; 71 mulheres
あんた anta 51 homens; 56 mulheres
きみ kimi 29 homens; 1 mulher
お前 omae 11 homens; 0 mulheres
お宅 otaku 7 homens; 3 mulheres

 

  • あなた anata: talvez a forma mais comum de se dizer “você” ou “tu”. É, simultaneamente, como uma mulher chama o marido ou algum (a) outra pessoa a quem seja aficionada: “querido”. Veja acima que de acordo com a pesquisa de corpus, esta forma é mais comum entre mulheres do que entre homens. Portanto, o que se recomenda é que assim que se saiba o nome do interlocutor, que o chame pelo nome + san.
  • あんた anta: forma familiar de anata. Frequentemente usado (na segunda pessoa) para referir-se a, familiares (de menor idade), amigos íntimos, namorado entre outros. Carrega uma ideia de amorosidade .
  • きみ kimi: termo coloquial e familiar masculino. Frequentemente usado (na segunda pessoa) para referir-se à namorada ou amigos.
  • お前 omae: termo coloquial masculino, possivelmente pejorativo. Muito usado para amigos.
  • お宅 otaku: termo honorífico, pertencente à linguagem formal japonesa (敬語 keigo). Usado para alguém de status hierárquico alto com quem não se tem proximidade – depois de se saber o nome da pessoa, recomenda-se chama-la de “nome + san”, “nome + sama”, “nome + dono”, ou o que for apropriado.

Tendo analisado as cinco maneiras mais comuns (e diretas) de se dizer “você” ou “tu” em japonês, podemos chegar a algumas conclusões sobre o trecho do mangá que estamos analisando. Se a moça tivesse chamado a pessoa em questão (Nomura-san) de anata, haveria implicação de que há algum envolvimento sentimental-romântico entre eles. Chamando-o de Nomura-san, ela é o mais neutra possível. Por mais que possamos supor que devido ao modo como ela disse “Por favor, Noshiro, esteja bem” ele deve ter alguma significância para ela, a maneira neutra como se referiu a ele indica que ainda há algo mal resolvido entre eles.

É assim que se trata uma donzela, Shixiong? :S

No exemplo do manga chinês Niao Long Yuan de 2004, no segundo quadrinho[10], vemos Shixiong (colega discípulo mais velho de um mestre em comum) tentando ser cavalheiro com uma moça:

阿心姑娘!坐吧!

Axin guniang! Zuò ba!

Vocabulário:

阿心 Axin: nome próprio de pessoa;

姑娘guniang: menina (aqui usado como forma / pronome de tratamento, parecido com “Nomura-san” ou “Nomura-sensei”[11]);

zuo: sentar-se;

ba: (intraduzível) (entre outros significados) partícula / auxiliar verbal usada no fim das sentenças para indicar sugestão, pedido, concordância, possibilidade, especulação, incerteza ou ordem (nomenclatura chinesa: 助词 zhuci)[12].

Podemos traduzir este trecho como:

Menina Axin! Sente-se!

No próximo quadrinho, o coleguinha sugere que Shixiong seja mais polido com a moça. Ao puxar a cadeira para ela, ele diz:

阿心姑娘!请坐!

Axin guniang! Qing zuo!

A única palavra que nos é nova agora é 请 qing. Ao contrário de 吧 ba, é usado antes do verbo a ser modificado e expressa respeito e intenção de que o interlocutor faça algo (a ação ou estado do verbo modificado) (entre outros siginificados)[13].

Assim, traduzimos esta última frase como:

Menina Axin! Por favor, sente-se!

Analisando o uso e significado de 吧 ba e请 qing, é possível afirmar que o segundo é mais polido que o primeiro. À vista disso, o convite de Shixiong para que Axin se sentasse à mesa com ele se tornou mais cavalheiresco.

 

Conclusão

Aprendemos com o presente artigo que não podemos falar japonês e / ou chinês como vemos nos mangás, visto que cada situação da vida requer que utilizemos um nível de formalidade adequado. Português não é assim também? Isto é parecido com as roupas que vestimos. Por mais que gostemos de usar shorts e camiseta, não fica bonito ir num casamento chique assim, né?

Exercícios

*Sinta-se livre para fazer só em mandarim, ou só em japonês*

Imprima numa folha estes exercícios e venha à Escola Marcial Família Long, combine um horário e venha resolvê-los com o professor Benjamin! Aprenda a pronúncia, a conversar, a escrever, a ler e de quebra aprenda sobre cultura chinesa e japonesa. Você sabia que a China e o Japão são, respectivamente, a segunda e a terceira maiores economias do mundo? Hoje é o seu dia de começar sua caminhada rumo a ser poliglota; seu currículo agradecerá. Quem conseguiu, um dia tentou. Aproveite e tome um chá conosco :3

Passe as seguintes frases do coloquial para o polido. Em japonês, retire a última sílaba do verbo e adicione て下さい -te kudasai  ou んで下さい  –nde kudasai.  Em chinês mandarim, adicione 请Qǐng  no começo da frase. Veja o exemplo abaixo:

1-) Ler um livro / estudar

(Coloquial) 本を読む hon o yomu

(retire última sílaba; adicione nde kudasai)

(polido) 本を読んで下さい。hon o yonde kudasai. 


(Coloquial) 读书 dushu

(polido) 请读书。Qing dushu


2- ) Beber suco

(Coloquial) ジュースを飲む juusu o nomu

(retire última sílaba; adicione nde kudasai)

(polido)


(Coloquial) 喝果汁 he guozhi

(polido)


3-) Assistir um filme

(Coloquial) 映画を見る eiga o miru

(retire última sílaba; adicione te kudasai)

(polido)


(Coloquial) 看电影 kan dianying 

(polido)


 

[1]              FUJIWARA, Y. JESUS Lesson 25 “Houkaigo no juusei”, pp 301. In: Shuukan Shounen Sandee vol 16. Tóquio: Shougakukan, 1993.

[2]                      AO, Y. X. Niao Long Yuan Baoxiao Manhua, pp 62 – 63. Changchun: Beifang Funü Ertong Chubanshe; Jilin Yinxiang Chubanshe, 2004.

[3]                      “Língua japonesa” em japonês.

[4]                      Os mangás japoneses são lidos da direita para a esquerda, de cima para baixo – como os livros japoneses.

[5]                      いて ite pode ser dividido e compreendido como a junção de iru (significado próximo ao verbo estar, palavra flexionável) com o sufixo te (não flexionável), que é necessário quando a palavra seguinte é flexional também. No presente caso, a palavra que se usaria seria 下さい kudasai (usada para tornar pedidos ou ordens menos ásperos, algumas vezes traduzida como “por favor”) e que foi omitida devido ao caráter coloquial da situação.

[6]                      http://oshiete.goo.ne.jp/qa/5865905.html

[7]                      De acordo com http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-44502000000200005, “A Lingüística de Corpus ocupa-se da coleta e exploração de corpora, ou conjuntos de dados lingüísticos textuais que foram coletados criteriosamente com o propósito de servirem para a pesquisa de uma língua ou variedade linguística”.

[8]                      WANG, X. Jingxiu Ribenyu Wenfa, pp 18 – 19. Beijing: Waiwen Chubanshe, 1998.

[9]                      https://www.ninjal.ac.jp/

[10]                    Os mangás chineses (da China continental), tais quais a maioria dos livros publicados na República Popular da China (China continental), são lidos à maneira ocidental. Da esquerda para a direita, de cima para baixo.

[11]                    Os pronomes de tratamento japoneses “san” e “sensei” foram utilizados apenas a título de exemplo. O equivalente japonês mais próximo a “guniangé “chan”.

[12]                    CHENG, M. H. Bihua Bishun Bushou Duoyin Duoyi Zidian pp 12. Beijing: Shangwu Yinshuguan Guoji Youxian Gongsi, 2009.

[13]                    CHENG, M. H. Bihua Bishun Bushou Duoyin Duoyi Zidian pp 582. Beijing: Shangwu Yinshuguan Guoji Youxian Gongsi, 2009.

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